quinta-feira, 11 de junho de 2015

Acordo

Como se escreviam algumas palavras em 1908:

Official, arithmetica, systema, augmentar, fallada, escripta, signaes, logar, deante, elles, occupar, collocar, somma, addição, despeza, parcella, columna, egualar, producto, iguaes, anno, alumnos, sahidos, pae, fallecer, sciencias, promptidão.

Sendo assim, haverá tanta razão para protestar o novo acordo?

  • Há coisas esquisitas de fato, por isso eu próprio , que sei bem que nada sei, até concordo com quem discorda porque, de facto, às vezes não sei com que fato hei-de vestir certas palavras! Irra, cágado cagado?

terça-feira, 5 de maio de 2015

John Steinbeck


(excerto da obra de John Steinbeck: “ a um deus desconhecido”)

O inverno chegou cedo nesse ano. Três semanas antes do dia de Graças, as tardes avermelhavam-se nas serranias do lado do mar e o vento desabrido varria o vale e passava a noite a cantar nas esquinas da casa, fazendo bater as cortinas das janelas. Pequenos remoinhos de vento atiravam nuvens de folhas e poeira pela estrada fora, como soldados em marcha. Os melros reuniam-se e voavam em grupos para longe e as pombas lamentosas pousavam nas sebes por algum tempo e depois desapareciam por uma noite. Todo o dia os bandos de patos e gansos passavam lá em cima a voar alto, apontados infalivelmente para o sul; e ao escurecer gritavam cansados, a procurar um brilho de água onde pudessem repousar durante a noite. A geada tomou posse do Vale de Nossa Senhora, queimando os salgueiros até ficarem amarelos e os noveleiros encarnados.
Havia no céu e na terra preparativos apressados. Os esquilos trabalhavam freneticamente nos campos, armazenando nos subterrâneos da comunidade dez vezes mais alimentos do que precisavam, enquanto à boca das tocas, os avós grisalhos soltavam guinchos agudos e dirigiam a colheita. Os cavalos e as vacas perdiam a pelagem luzidia que se tornava áspera com o pelo novo do inverno; os cães faziam covas pouco fundas para dormirem protegidos contra os ventos rasteiros.

E, apesar da atividade, por todo o vale pairava uma tristeza como a neblina azul e esfumada sobre as montanhas. A salva estava preta. Os carvalhos deixavam cair folhas como a chuva e, apesar disso, continuavam revestidos de folhagem. Todas as noites o céu ardia sobre o mar e as nuvens acumulavam-se e estendiam-se, atacando e recuando como a treinar-se para o inverno.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Rijos


Eram assim os homens que nos tiraram do jugo dos mouros. Que falta fariam agora para subirem ao ninho das cobras da troyka!

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Histórias resumidas

Uma fuga da escola, leva meaulnes a cair num lugar fantástico onde encontra uma linda rapariga por quem se apaixona: Ivone Galais, assim se chamava. Nesse lugar preparava-se uma boda de casamento do irmão dessa rapariga com uma outra que com ele havia de chegar ao lugar. Esse irmão de Ivone chamava-se Frantz. Entretanto, este acabou por regressar só, porque a rapariga com quem ia casar, Valentina, desistiu à última hora, não tendo sequer comparecido ao encontro conforme combinado. Ficaram, portanto, sem efeito , as grandes celebrações que estavam preparadas e os convidados foram saindo aos poucos do lugar. Meaulnes, que não tinha sido convidado por ninguém que havia comido e dormido como um convidado qualquer e, antes que o denunciassem, aproveitou uma boleia e regressou a casa para continuar os estudos, levando, contudo, Ivone no coração. Frantz, arruinado psicologicamente, abandonou também o lugar, sem ao menos se despedir dos familiares. Pelo que se apurou depois, juntou-se a um bando de saltimbancos que davam espetáculos em diversos lugares. Frantz e Meaulnes não se conheciam. Cruzaram-se uma época na mesma escola e tornaram-se amigos. Frantz sempre com Valentina no pensamento e Meaulnes ansioso por voltar a encontrar-se com Ivone Galais. Entretanto, passara-se muito tempo e quando Meaulnes voltou ao lugar já não encontrou Ivone. Soube que se tinha mudado e que costumava ir passar férias a Paris. Tendo rumado a Paris, encontrou a casa onde Ivone costumava habitar mas esta não dava sinais de vida. Travou conhecimento com uma certa rapariga que deambulava por Paris e passou a conviver com ela. Depois de várias idas a Paris acabou por desesperar de encontrar a sua amada e voltou para a sua localidade. Antes de conhecer Frantz, Meaulnes tinha como seu maior amigo Francisco Seurel. Foi este que, enquanto Meaulnes andava por Paris que, através de uns tios, descobriu o paradeiro de Ivone. Então levou o amigo até ela. Começou para Meaulnes e Ivone um curto período de felicidade: casaram. Pouco depois, porém, Meaulnes que, nos contactos com Valentina se tinha apercebido que ela era a tal noiva que tinha feito do seu amigo Frantz, o jovem mais infeliz deste mundo, disse a Ivone que tinha de fazer uma viagem, uma viagem cujo objetivo a ninguém revelou. Eram os remorsos que o levavam por sentir que era feliz e que um seu amigo era infeliz e estava à beira do suicídio. Tendo ouvido dizer que o grupo de Frantz caminhava pelas estradas da Alemanha para aí se encaminhou e demorou demasiado tempo. Acabou por encontrar Frantz e ir com ele ao encontro de Valentina em Paris. Os três voltaram com ele para aquele lugar onde um dia foi parar por casualidade , após uma dolorosa aventura. Agora, porém, tudo estava diferente: Ivone tinha morrido, depois de dar à luz uma menina. O pai de Ivone e Frantz também. Só uma filha de meses o aguardava e o seu velho amigo Seurel. Tudo ia começar de novo. (Sinopse da obra de Alain-Fournier "o grande meaulnes")

sábado, 28 de março de 2015

Boa casta

Hoje, ouvi na rádio o seguinte diálogo:
(As palavras como estão são minhas mas a essência é dos dialogantes, sobretudo essa pérola do “tênhamos”!
  • Entrevistador: Qual é o segredo da excelência deste seu vinho?
  • Empresário: A casta trincadeira preta faz com que tênhamos esta maravilha!
  • Entrevistador: e a poda? É difícil, não?
  • Empresário: a poda é uma arte. Sabia que as primeiras podas foram feitas por burros?
  • Entrevistador: ai é?
  • Empresário: pois. Antigamente alguns agricultores usavam os burros para puxar as charruas na preparação da terra e, enquanto faziam o trabalho, os animais iam comendo as pontas das videiras. Conclusão: a produção destes agricultores era muito maior! A partir daí todos começaram a podar, não com a boca dos burros mas sim com as tesouras.
  • Entrevistador: deduz-se então que, além de ser uma arte, qualquer burro pode ser podador!!!

quarta-feira, 25 de março de 2015

Lavadeiras

Estes tanques situados por detrás da fonte da Moita, foram as grandes máquinas de lavar dos anos 50 e, pelos vistos, ainda  há quem as utilize. Prova-o esta foto tirada hoje, 25 de Março de 2015! Senti vontade de os ver e recordar aquele tempo. Hoje é um espaço reduzido e encurralado entre vários edifícios mas, outrora, à sua volta, existiam areal e canteiros de jardim. Era sobre esses canteiros que as lavadeiras estendiam as roupas para as secar e corar ao sol. Para uma criança, o recinto era um espaço enorme e como todos os tanques estavam sempre ocupados, a algazarra das mulheres era indescritível, ou, se o quisermos descrever, talvez possamos dizer que não diferia muito do que é hoje, por exemplo, o mercado da ribeira. Mas, como era espinhoso aquele trabalho das lavadeiras!... ensaboar a roupa, batê-la na pedra, torcê-la, enxaguá-la, voltar a torcer! Enquanto isso, os filhos brincavam num areal que havia ao lado, mas sempre vigiados. Terminado o trabalho, punham uma rodilha sobre a cabeça e sobre a rodilha o alguidar de barro cheio de roupa. A filharada atrás, corria e saltava como passaritos, inconscientes das agruras da vida de uma mãe!

sexta-feira, 20 de março de 2015

Alhos e bugalhos

Quando calcorreamos os carreiros das poucas áreas de mato virgem que ainda vão sobrevivendo, deparamos por vezes com estas “moradias” de vespas a que damos o nome de bugalhos. Deles se recordam os mais idosos que os usavam quando crianças para jogar ao berlinde, antes de aparecerem os de vidro multicoloridos. As vespas depositam os seus ovos nos ramos de certas árvores da família do carvalho, sobreiro e azinheira e sobre eles se formam esses esféricos casulos em cujo interior ocorrerão as diversas metamorfoses da vespa, até se transformar num inseto adulto.
Vão-se encontrando também, ainda, as urzes, a carqueja, os medronhos, os murtinhos e muitos cogumelos. Quanto a estes, cuidado, nunca confundir alhos com bugalhos!!!