sexta-feira, 17 de julho de 2015

Pois, bois.

“Tendes visto um guardador de cabras à frente do seu rebanho, conduzindo com acenos e assobios todas as barbudas cabeças daquele regimento quadrúpede? Pois vistes o mais perfeito símile da cena que se presenciava agora no adro da igreja matriz.
O povo, o povo soberano, que naquele dia tinha nas mãos o ceptro da sua soberania, não era menos dócil do que os irracionais que recordamos.
Não é semelhante esta força inconsciente do povo à do boi robusto e válido, que uma criança dirige e subjuga? Forte como ele, como ele dócil, como ele laborioso, como ele útil, não vê que a mesma força que emprega no trabalho lhe poderia servir para repelir o jugo. Ou, quando o vê, é quando o desespero e a fúria o cegam e o impelem a revoltas tremendas.”

(excerto de “A morgadinha dos canaviais” de Júlio Dinis)
Nota: quando Júlio Dinis escreveu isto ainda não havia acordo!

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Desprezar é vandalizar!

Este pináculo caiu da torre do antigo convento da Trindade em Santarém, em meados do último Junho. Soube-o pelo jornal “O Mirante” donde retirei a foto. A mesma foto é acompanhada de um breve texto em que, além de outras coisas, se diz que, felizmente, não houve vítimas. Diz-se ainda que alguém perguntou se a torre tem sido monitorizada. E agora eu, armado em crítico, se bem que de meia tigela,  pergunto: e se fosse alguém a passar ou houvesse ali crianças a jogar ao berlinde? E, para terminar, pergunto só mais uma coisa: valia a pena perguntar se a torre tem sido monitorizada? Então não se vê logo pelo aspeto do passeio e daquelas ervinhas? Realmente, nisto de destruir património cultural, somos mais eficazes do que os jihadistas que esses ainda se cansam a dar marretadas lá para os lados da antiga Babilónia! Nós aqui é só deixar andar e está feito!!!

Tempos


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Dinheiro falso

O dinheiro é todo falso! Basta repararmos no fenómeno das bolsas: Se os donos do dinheiro ficam contentes quando há sol na Grécia, as cotações sobem imediatamente desde Nova York até ao Japão; se na Grécia chove e há alguma tempestade, logo os donos do coiso entram em pânico e o que ontem valia 1€ hoje vale apenas 050€. Isto parece querer provar pura e simplesmente que o dinheiro não vale aquilo que vale!, ou seja, é falso! Ah, e quando dizem que os mercados são muito sensíveis, querem dizer que são é muito ladrões!  

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Acordo

Como se escreviam algumas palavras em 1908:

Official, arithmetica, systema, augmentar, fallada, escripta, signaes, logar, deante, elles, occupar, collocar, somma, addição, despeza, parcella, columna, egualar, producto, iguaes, anno, alumnos, sahidos, pae, fallecer, sciencias, promptidão.

Sendo assim, haverá tanta razão para protestar o novo acordo?

  • Há coisas esquisitas de fato, por isso eu próprio , que sei bem que nada sei, até concordo com quem discorda porque, de facto, às vezes não sei com que fato hei-de vestir certas palavras! Irra, cágado cagado?

terça-feira, 5 de maio de 2015

John Steinbeck


(excerto da obra de John Steinbeck: “ a um deus desconhecido”)

O inverno chegou cedo nesse ano. Três semanas antes do dia de Graças, as tardes avermelhavam-se nas serranias do lado do mar e o vento desabrido varria o vale e passava a noite a cantar nas esquinas da casa, fazendo bater as cortinas das janelas. Pequenos remoinhos de vento atiravam nuvens de folhas e poeira pela estrada fora, como soldados em marcha. Os melros reuniam-se e voavam em grupos para longe e as pombas lamentosas pousavam nas sebes por algum tempo e depois desapareciam por uma noite. Todo o dia os bandos de patos e gansos passavam lá em cima a voar alto, apontados infalivelmente para o sul; e ao escurecer gritavam cansados, a procurar um brilho de água onde pudessem repousar durante a noite. A geada tomou posse do Vale de Nossa Senhora, queimando os salgueiros até ficarem amarelos e os noveleiros encarnados.
Havia no céu e na terra preparativos apressados. Os esquilos trabalhavam freneticamente nos campos, armazenando nos subterrâneos da comunidade dez vezes mais alimentos do que precisavam, enquanto à boca das tocas, os avós grisalhos soltavam guinchos agudos e dirigiam a colheita. Os cavalos e as vacas perdiam a pelagem luzidia que se tornava áspera com o pelo novo do inverno; os cães faziam covas pouco fundas para dormirem protegidos contra os ventos rasteiros.

E, apesar da atividade, por todo o vale pairava uma tristeza como a neblina azul e esfumada sobre as montanhas. A salva estava preta. Os carvalhos deixavam cair folhas como a chuva e, apesar disso, continuavam revestidos de folhagem. Todas as noites o céu ardia sobre o mar e as nuvens acumulavam-se e estendiam-se, atacando e recuando como a treinar-se para o inverno.