Moatize,
zona de Tete, Moçambique. Era domingo e havia uma estranha calma no
aldeamento daquela central de asfalto onde eu tinha a meu cargo a
parte administrativa. O ar estava abafado...pesava e não havia sol.
Nuvens escuras cobriam tudo. A casa onde vivia era bonitinha, toda de
madeira e o telhado constituído por chapas de zinco ou algo do
género. Achava-a muito grande.
Nos
dias em que a central estava parada como naquele domingo, eu gostava
de dormir a sesta, no entanto, algo me puxava para sair. Como no
lugar nem um café havia, pensei ir até ao escritório onde tinha
uma máquina de escrever e me podia entreter. O escritório era um
apartamento retangular, todo em alvenaria e bastante confortável.
Ficava logo do outro lado da estrada, a caminho da central. Para lá
me dirigi então. Foi só atravessar a estrada. Mal acabei de abrir a
porta do escritório começo a ouvir trovões, o vento a uivar e
quase em simultâneo, uma chuva impiedosa a crivar o solo de buracos
como se caíssem balas do céu! Relâmpagos, trovões, cenário
dantesco.
Apesar
disso estava tranquilo. Estava no local mais seguro do acampamento.
Ali passei uma parte da tarde entretido enquanto durou a tempestade.
E digo enquanto porque logo que a mesma terminou, apareceu o Artur,
filho de um funcionário dos caminhos de ferro que ali vivia. Entrou
a correr e puxou-me pela mão dizendo que precisava ir ver uma
coisa. Fechei o escritório e fui. Como a minha casa ficava quase à
beira da estrada principal, nem precisei mais das explicações do
miúdo. A minha casa estava com uma cara muito estranha, ou melhor,
meio despenteada: Umas chapas na vertical, outras fazendo “ésses”
e algumas outras apontadas ao chão. Entrei e nem queria acreditar.
Uma barra de ferro com um bloco de cimento agarrado, tinha furado o
colchão da minha cama exatamente no centro. Tinha ali um quarto a
céu aberto pois quase todas as chapas tinham ido com o vento. Ao ver
o miúdo triste a olhar para mim comecei-me a rir e logo ele também.
Olha do que eu me safei! -disse. Felizmente, perto daquela havia uma
casa vaga e, embora muito mais pequena, era muito engraçada. Mudei
logo para lá. Fora as graças, só hoje é que penso a sério no que
aconteceu. Naquele domingo não fui à missa, tal como não ia nos
outros, mas um anjo me pegou pela mão e levou para um local seguro.
Depois, um outro anjo me pegou pela mão e me levou a ver...o quê?
O castigo... a salvação? - Não sei! Só sei que às vezes há
anjos que nos pegam pela mão!
...bom relato !... e talvez haja anjos que às vezes nos levam pela mão...
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